Mais um pouco de YouTube

Estava lendo meus feeds RSS e um blogueiro fez um post compartilhando esse vídeo do YouTube.

Vídeo muitíssimo bem produzido, que captura nossa atenção, falando do tempo que apenas consumimos enquanto poderíamos estar criando, até que… PÁ!!!! vem a marca que patrocina o vídeo. E apenas nesse momento nós sabemos que é um vídeo patrocinado.

Nesse momento, tudo que a “criadora” estava argumentando para mim caiu por terra. Porque já não sei se ela produziu aquilo porque acredita ou porque era apenas um tema que combinava com a patrocinadora.

Com um vídeo tão bem produzido, gostaria que tivesse sido real.

Youtube deixou de ser um espaço legal

Estou há cerca de 15 dias consumindo vídeos do Youtube de uma forma bem esporádica. Durante os primeiros 7 dias me afastei totalmente, fiz como um desafio, um experimento. Mas, passados os 7 dias, continuo sem vontade de estar lá, assisto um ou outro vídeo que realmente quero muito ver - e não posso ver em outro lugar.

Nesse post, vou comentar as razões desse afastamento.

Anúncios

muitos anos o Youtube se tornou um hábito, onde me inscrevo e acompanho canais de assuntos que eu gosto e, verdade seja dita, onde já aprendi coisas legais também. O que para muitos brasileiros e brasileiras é a TV aberta, para mim é o Youtube.

Contudo, de uns meses para cá, o sistema de anúncios do Youtube se tornou algo para mim extremamente irritante. Os anúncios são muito, mas muito repetitivos.

Não consigo entender a estratégia de marketing por trás disso, já que essa repetição só me faz ficar com ódio daquela marca, e não incentivar meu consumo. Se um anúncio gera esse tipo de emoção, ele só pode ser no mínimo uma falha de marketing.

Além disso, existem anúncios que no meu caso são um erro de direcionamento. Por exemplo, tem um anúncio de uma marca de produtos para pele que passa para mim há MESES. A questão é que eu não sou um usuário de produtos para pele, exceto protetor solar (que uso até menos do que deveria).

Ora, se anúncios são um problema, você pode então dizer: assina o Premium.

Essa é a questão. Eu não vou assinar uma plataforma que está me obrigando a assinar. Ela precisa me convencer que é bom, não me deixar completamente irritado com seu sistema de anúncios.

Ontem, por exemplo, fui tentar ver um vídeo, e apareceu o mesmo anúncio que há MESES eu recebo. Eu simplesmente saí do aplicativo, porque não suporto mais olhar para esse anúncio.

Rede social

Por ser uma pessoa que nunca gostou muito de rede social, eu costumava acreditar que o Youtube não era uma rede social, e sim uma plataforma de vídeos. Me enganei. O Youtube é uma rede social.

Nele, estão todas as características presentes em todas as redes sociais:

  • Retenção da atenção
  • Feed infinito
  • Engajamento
  • Bolha
  • Anúncios
  • Mais retenção da atenção
  • Mais anúncios
  • Mais bolha

O ciclo infinito desenhado e construído para nos prender a ele por mais tempo possível. Quanto mais tempo estamos nele, mais o Google se torna lucrativo. Cal Newport, em seu livro Minimalismo Digital, nos lembra disso:

as novas tecnologias que emergiram na última década são particularmente adequadas para estimular os vícios comportamentais, fazer as pessoas usá-las muito mais do que julgam ser útil ou saudável. De fato, como revelado por informantes e pesquisadores como Tristan Harris, Sean Parker, Leah Pearlman e Adam Alter, essas tecnologias são, em muitos casos, especificamente projetadas para desencadear esse comportamento dependente. O uso compulsivo não resulta de uma falha de caráter, mas da realização de um plano de negócios significativamente lucrativo.

Mais a frente no livro, Cal também compara o valor de mercado de empresas como o Google e Facebook, com empresas de petróleo como a Exxon Mobil. Enquanto o Google valia algo como 800 bilhões de dólares, a Exxon Mobil valia 370 bilhões. Ou seja, a extração de minutos do globo ocular se tornou mais lucrativa que a extração de petróleo.

Indústria e Criadores

Esse ciclo infinito é perverso porque leva os “criadores” a seguirem essa roda de hamster. Por exemplo, há algumas semanas ouvi de um youtuber de um canal grande de quadrinhos: “esse quadro acabou porque o engajamento não tava bom”.

Isso é criação? Não, é indústria. Como um produto que vende pouco, e a fábrica encerra sua produção. Se um quadro de um canal não engaja, não tem anúncio, se não tem anúncio ele precisa ser encerrado.

Exceto algumas exceções (como o VCP 2.0 do Vladimir Campos), a vontade de se expressar, de compartilhar, de ajudar o outro, de fazer um relato sincero, não existe mais. TUDO é feito para engajar, reter e monetizar. É a pejotização da pessoa física.

Com isso, me pergunto: será que os “criadores” não são, na verdade, gerentes dessa fábrica?

Independência

Nesse período em que estou buscando alternativas e mudanças de hábito, percebo que uma possível solução seria em algum futuro próximo os “criadores” se dedicarem a protocolos ou meios independentes de distribuição de seus vídeos. Ao menos, se tornariam parcialmente independentes de uma única plataforma.

Vejamos, por exemplo, os podcasts - que aliás o citado VCP 2.0 também é. Se eu não gosto do Spotify, posso ouvir o mesmo conteúdo no Deezer, ou Apple Podcasts, ou qualquer outro reprodutor de podcasts. O autor e o consumidor estão livres para postar/ouvir onde quiser.

É exatamente o que estou fazendo no Spotify, como alternativa para sair daquele espaço irritante que se tornou o Youtube. Alguns pouquíssimos canais também postam no Spotify os vídeos. Pelo menos, é uma alternativa.

Talvez essa seja a solução. Não é só trocar a plataforma, mas ser possível distribuir o mesmo vídeo em diversas outras, como é o podcast.

Isso também já acontece há décadas nos Blogs. Eu posso ler qualquer blog no navegador que eu quiser, não estou preso a nenhum deles. Fora que posso ler em leitores RSS. Ou seja, o local em que leio é completamente livre, de minha escolha.

Muito provavelmente, os anúncios continuarão existindo, contudo, eles serão restritos aquele autor/produtor. E, talvez, ainda seja mais vantajoso para ele, já que nenhuma parte dessa receita (ou a sua quase totalidade) vai apenas para uma única empresa: o Google.

Youtube e Consumismo

Já comentei aqui que voltei a ler HQs. Esse é um hobby cíclico: comecei na adolescência, parei por muitos anos, retornei há cerca de quatro anos e, agora, retomei novamente. Sim, eu sou estranho… mas esse não é o ponto.

Venho observando que, sempre que inicio ou retomo algum interesse, passo a acompanhar canais no YouTube sobre o tema. Inevitavelmente, isso me leva a comprar coisas: HQs, filmes em mídia física, jogos, entre outros.

Até aí, tudo bem, certo? É um hobby e, felizmente, não se trata de uma compulsão. No entanto, tenho refletido sobre como esses canais podem estar contribuindo para o consumismo e quais são as razões por trás disso.

Estantes

Na maioria dos canais sobre quadrinhos, o cenário de gravação conta com uma estante ao fundo, repleta de títulos americanos, mangás, heróis e edições europeias. Nos canais de colecionismo de filmes, o padrão se repete, trocando o papel pelo plástico dos DVDs, Blu-rays e até VHS. Recentemente, descobri que esse padrão também domina o BookTok — nicho do TikTok focado em literatura.

Portanto, há um padrão estético consolidado que transmite uma mensagem subliminar:

“Você precisa ter uma estante assim” ou “Este é o objetivo a ser alcançado”.

Não digo que os influenciadores façam isso de forma proposital; talvez seja apenas um formato que se convencionou. Porém, é inevitável traçar um paralelo com os padrões de beleza: cria-se um “corpo ideal” para a coleção, e qualquer coisa diferente disso é vista como insuficiente ou errada.

Compras do mês

Outro quadro recorrente são as “Compras do Mês”, “Aquisições”, “Unboxing” ou “Bookhaul”. É bem comum ver nesses canais os youtubers exibindo dezenas de novos títulos de uma só vez.

A questão é que, muitas vezes, não sabemos se eles realmente compraram aquelas obras. Muitos recebem o material das editoras e, na minha opinião, não deixam isso claro. Usam termos como “recebemos” ou “a editora enviou”, mas raramente ouço algo direto como: “Pessoal, não paguei por este livro; é uma divulgação”.

Além disso, há o agravante de que alguns influenciadores não leem as obras que recomendam, como se vê nesses dois vídeos (1 e 2).

Grupos de promoção

Uma fonte de renda comum para esses canais são os grupos de promoção no Telegram ou WhatsApp, onde compartilham links de afiliados. Muitas vezes, a divulgação foge do nicho do canal; conheço canais de games que anunciam até produtos para bebês.

Como em qualquer link de afiliado, o influenciador ganha um percentual sobre a venda. Em outras palavras: quanto mais os inscritos compram, maior é a recompensa do influenciador.

Consumismo

Acredito que esses fatores impulsionam uma cultura de consumo em que compramos o que sequer conseguimos apreciar. O foco passa a ser comprar para ter a “estante do vídeo”, para aproveitar a promoção ou para postar na rede social. É comprar para ter, ou para mostrar que tem.

Não pretendo ser alarmista, mas convido você a refletir: esse tipo de conteúdo tem influenciado o seu comportamento de compra? Você está comprando por interesse genuíno ou apenas replicando o que vê no Youtube, TikTok e afins?

Resumos de IA no YouTube

Acabei de acessar o resumo de IA de um vídeo do YouTube. Um vídeo que eu tinha assistido anteriormente.

O resumo é fiel às partes principais do vídeo, com os links para a minutagem daquele assunto.

É um recurso interessante para os espectadores? Sim. E para os criadores de conteúdo?

Como tem acontecido com os Blogs, quanto esse recurso vai impactar nas visualizações daquele vídeo?

Quanto os criadores vão deixar de receber com a publicidade? Qual será o impacto na construção de autoridade?

E sem assistir os vídeos, como os anúncios serão veiculados? Possivelmente, em breve no próprio resumo. Ou seja, tirando do vídeo (e do dono do canal) e colocando no resumo.

Para mim, os resumos de IA, seja nos Blogs, ou no YouTube, são uma espécie de furto de conteúdo. Em parte, uma violação de direito autoral. Não consigo acreditar que o Google tenha implementado essa funcionalidade apenas em benefício do usuário.

Ao menos, parece que o dono do canal pode tirar isso. Mas será que o Google vai deixar isso barato? 🤔

Selo EntreBlogs 2.0